♥ Uma leitura para grandes e pequenos... ♥




* Trago esse artigo que retirei da Zero Hora, dia 06/04/14, escrito pelo David Coimbra e que achei interessante para que as crianças vejam e imaginem como seus pais e avós podiam ser felizes numa época tão diferente da delas hoje em dia!

Para os adultos, tenho certeza, gostarão de ler na integra:

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Um tempo sem kiwi e sem heróis

Sou de um tempo sem kiwi. Não havia kiwi, não havia sushi, o pão era semolina de meio quilo, tudo era mais difícil naquela época. Também não havia internet, logo não havia e-mail ou Facebook, não havia nem celular e nós nem sequer tínhamos telefone fixo em casa. Como nos comunicávamos? Não sei. Como arranjávamos amigos e namoradas? Não faço a mais tísica ideia.

Que mundo estranho era aquele sem kiwi.

Naquele tempo tão longe, de mim distante, os guris não sonhavam em ganhar iPad de Natal. Não, não, nossos anseios, basicamente, se resumiam a três presentes:

1 Uma bola de couro número 5, coisa cara.

2 Uma bicicleta, coisa caríssima.

3 Um autorama, coisa para nababo.

Uma vez ganhei uma bola de couro número 5, costurada a mão por algum presidiário, gomos pretos e brancos, uma lindeza, o único tipo de bola que deveria ser utilizado em quaisquer campeonatos do mundo para todo o sempre, amém.





Lembro-me da pena que senti em chutá-la pela primeira vez, mas, bem, eu tinha de chutá-la, para isso ela existia, e a chutei com gosto, todos nós da turma a chutamos, jogos épicos foram disputados com aquela relíquia, marquei gols com ela, sim, os marquei, até que ela foi gastando com o tempo e com o uso, e logo a tinta branca e preta desbotou, e em seu lugar restou o cinza sujo do couro, e um dia a costura de um gomo se abriu como uma fenda na carne, e olhei para a minha linda bola de couro número 5 com alguma tristeza, sabia que ela estava chegando ao fim, mas sabia, também, que tudo na vida nasce, alcança o auge, passa pela decadência e morre, e via que a morte da minha bola se iniciava, e logo os gomos foram se soltando, um a um, um por jogo, e em pouco tempo ela parecia uma velha casa com a tinta descascada e as janelas arrombadas, uma casa abandonada e melancólica, e logo ela nem rolava mais direito, e um dia foi substituída por uma bola novinha que algum outro guri ganhou de aniversário, e foi posta de lado, e murchou, esquecida, como murcham até os grandes sentimentos, e morreu como morrem até os amores imortais.

Foi triste perder aquela bola. Mas valeu a pena, porque você só perde o que você um dia teve, e eu a tive.





Autorama, não. Autorama nunca tive. Autorama era areia demais para o caminhãozinho financeiro da família. 

Mas bicicleta um dia ganhei. Recordo minúcias daquele feliz Natal. Foi um esforço conjunto de mãe, vô, madrinha e vó. Um mutirão. E lá estava ela, uma Caloi azul escura, de trava torpedo, aro grosso, pneus pretos da espessura do meu braço. Que emoção.

Era uma bicicleta sem marchas. Ninguém ganhava bicicleta com marcha num tempo sem kiwi. Depois é que surgiu a Caloi 10. Dez marchas, um luxo. Diziam que com uma bicicleta de 10 marchas você podia subir a lomba da Lucas assobiando, mas acho que era lenda.

De qualquer forma, percorri toda a cidade com minha Caloizinha. Saíamos em cardumes, pedalando pelos bordos das avenidas. Fomos até a longínqua Zona Sul, região por nós desconhecida, hábitat de gente esquisita, que convivia com o rio. Fomos à inóspita Alvorada. Nos aventuramos pela Freeway. Pedalamos, pedalamos, e nem sabíamos que éramos heróis.

Como o tempo é injusto com os homens. Fosse hoje, seríamos incensados na cidade. Seríamos reportagem de jornal. Seríamos personagens de discurso na Câmara. Sim, porque, agora, neste tempo de kiwis, existe a crença de que andar de bicicleta muda o mundo, de que andar de bicicleta é fazer a Revolução.

Quem poderia imaginar? Nenhuma daquelas duplas famosas, Marx & Engels, Lenin & Trotski, Fidel & Che, nenhum deles imaginaria que o capitalismo seria abalado a pedaladas.

Mais amor, menos motor.

Querem ler na integra? Cliquem AQUI!

17 comentários:

  1. Chica, obrigada por compartilhar este texto maravilhoso!
    "Ninguém ganhava bicicleta com marcha num tempo sem kiwi". A mais pura verdade!
    Beijo.

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  2. Ah! que maravilha d e texto Chica. Tbm sou desse tempo e por aqui onde nasci nem saíamos o que eram isso, até hoje em plena tecnologia as crianças daqui, claro com exceção de algumas de famílias mais abastecidas sabem o que é celular, ipad, tablet, as que dou aula por exemplo não sabem, e nunca viram a não ser na tv.

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  3. Só posso dizer que o texto é divino Chiquinha,sou desse tempo sim, quantas coisas veio depois, facilitou e muito muita gente

    Abraços de boa semana
    Rita!!!


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  4. Chica,que texto mais bonito! Tb me lembro da minha caloi vermelha que ganhei no Natal e saíamos com ela a pedalar pelo bairro,era demais! Mas kiwii não tinha mesmo, não!...rss...bjs,

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  5. Gostei muito desse texto principalmente da parte da bola e da bicicleta você está certa hoje em dia andar de bicicleta é revolução agora kiwi é caro mais são comprados sempre que faltar e o celular esta na moda ter. Eu e a minha mae aderimos a bicicleta!Beijos eu voltei!

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  6. Chica. Excelente texto. Me lembrei da minha bicicleta amarela Cecizinha! E com cestinho na frente, eu achava o máximo! Beijo!!

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  7. Muito bom esse texto! Lembrei do meu pai remendando a bola bege numero 5 do meu irmão.Ainda não tinha a bola preta e branco.Meu pai aposentou-se muito cedo e foi trabalhar como sapateiro, ele consertava muitas bolas de couro, costuras que eram feitas a mão!
    Chica, adorei obrigada por compartilhar, tive belas lembranças.Amanhã vou mostrar para Pedro
    beijos
    Amara

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  8. Fantástico texto, Chica. A verdade é que era mais fácil arranjar amigos e namoradas nessa altura, porque as pessoas conviviam, conversavam, batiam à porta uma das outras...
    Que saudades desse tempo. Praticamente só ganhava roupa nova no Natal e olha lá...
    Beijos, mil, e uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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  9. Este texto é uma verdadeira pérola!
    Li tudo e fiquei encantado, pois sou desse tempo em que tudo o que havia era a nossa imaginação.
    Adorei.
    Beijinhos!

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  10. Texto belíssimo. Lembro-me desse tempo. Não tinha nem Caloi nem Kiwi, mas a bola era presente(rsrs).
    Abração.

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  11. A memória acaba por apagar grande parte dos momentos que vivemos,
    dos risos que demos e das lágrimas que deixamos mas
    à uma coisa que nunca se esquece, os amigos.
    Os amigos ficam para toda a vida e
    costuma-se dizer que a amizade verdadeira é eterna.
    Os amores vêm e vão mas os amigos
    continuam sempre presentes nas nossas vidas.
    È nisso que eu acredito ou já teria
    fenecido.
    Um carinhoso abraço minha linda amizade.
    Beijos na alma..Evanir.

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  12. Hey beauty love your new post =) Keep posting .
    Regards from Bosnia ♥
    http://obsessionwithfashion.blogspot.com/

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  13. Boa noite amiga Chica!!!
    Sabe, me emocionei ao ler o texto...fiquei me recordando das brincadeiras na rua, das voltas de bicicletas nos outros quarteirões com os amigos...
    Hoje em dia, meus filhos se querem andar de bicicleta, tem que ser no quintal...as ruas já não são mais como antigamente, com poucos carros e os mesmos com menor velocidade...agora todos andam como loucos e nem obedecem as sinalizações e demais regras de trânsito.
    Me lembro que escrevíamos cartas para os parentes distantes e já era moça, quando vi uma menina usando celular (para alguns era "a metida") rsrsrs
    Hoje a casa que tem menos celular tem ao menos um. Incrível....
    Sou feliz por fazer parte dessa época; bolinha de gude, pipa, carrinho de rolimã, papéis de carta,pião, esconde-esconde, pega-pega, aventuras e mais aventuras nas ruas...saudades...
    Tenha uma noite abençoada!!!
    Bjokas...da Bia!!!

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  14. Que legal este texto!
    Mas uma coisa que admiro muito nesses tempos de kiwi (que nunca consegui ver) é a segurança.
    Se alguém me fala " E aí Neno, bora andar de bicicleta pela cidade?" eu começo a rir. Não tem como fazer nada com liberdade.
    Adorei mesmo!
    Bjs do Neno

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  15. Tive que ler este também, Chica que saudades tenho daquele tempo, tudo era tão melhor, mais simplicidade, mais verdade, mais alegria, ah pra mim era tudo melhor, beijos Luconi

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  16. OI Chica, texto fantástico. Me lembrei da inha infância sem kiwi, sem sushi, mas com muitas pedaladas (bicicleta era presente de Papai Noel e olhe lá) e muitas subidas em árvore.

    beijos
    Chris
    Inventando com a Mamãe

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  17. Muito legal esse texto, Chica
    Era tudo mais descomplicado, né?
    As frutas tinham sabor
    Havia mais amor
    Beijinhos de
    Verena e Bichinhos

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♥ ♥ ♥ Fico feliz de te ver aqui, falando comigo!beijos,chica ♥ ♥ ♥