Mostrando postagens com marcador Jairo Válio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jairo Válio. Mostrar todas as postagens

♥ O PORQUINHO PITOCO ♥

Jairo Valio



Muito sapeca, fuçava todo o terreiro,

e quando mamava na mamãe gorducha,

era guloso e se banqueteava no leite farto,

brigando com os irmãozinhos menores,

disputando as tetas como se fossem só suas.


A mãe olhava de soslaio o filho briguento,

mas dele tinha uma estranha preferência,

por ser tão diferente, na cor preto e branco,

destoando da ninhada onde todos eram pretinhos,

e isso chamava a atenção da criançada vizinha.

Pitoco corria atrás das galinhas no terreiro,

roubando suas quireras derramadas no cocho,

espantando todas numa algazarra infernal,

e só se acalmava quando o galo lhe enfrentava,

pois tinha receio de suas esporas tão afiadas.

Quando estava farto de tanta gulodice

procurava um canto onde queria dormir,

e quando estava roncando vinham as crianças,

que carregavam no colo o porquinho bonito,

para tomar o bainho do dia que tanto adorava.


Pegavam shampoo até deixar a água espumosa,

esfregando seu couro espesso com a escova grossa,

tirando carrapichos que na pele grudavam,

e até carrapatinhos atrevidos chupando seu sangue,

e depois de limpinho Pitoco ficava uma gracinha.


Embrulhavam numa toalha felpuda seu corpo bonito,

para brincarem com o porquinho na sala de espera,

e como se fosse um cachorrinho bastante sapeca,

corria atrás de brinquedos e escondia atrás do sofá,

até que Pitoco era encontrado e todos gargalhavam.


Ficava depois ronronando no colo da criançada,

sabendo que logo teria o leitinho na mamadeira,

adoçado com mel e misturado com canela moída,

que vinha quentinho e Pitoco mamava guloso,

e nessa vida gostosa era o xodó das crianças.

♥ Quero ser criança ♥


imagem daqui

Jairo Valio

Não sei correr, levar tombos,
Ralar os joelhos, choramingar.
Vejo lá longe matas todas floridas,
Árvores onde cantam os passarinhos.

Desajeitado, quero subir num tronco,
Vendo nos galhos frutas para colher,
Com o desejo imenso de saboreá-las,
Tendo a certeza que serão saborosas.

Não tenho forças para alcançar um galho,
E envergonhado volto para meu mundo virtual,
Onde na sua tela aparecem algumas cenas,
Algumas ingênuas, outras até violentas.

Horas vão passando e esqueço quem sou,
Absorto num mundo criado pela tecnologia,
Sem imaginar que um dia ele se modificará,
E aí quando adulto poderei recordar a infância?

Queria correr solto no chão de terra batida,
Tendo como coadjuvante uma bola de futebol,
E com muitos amiguinhos fazendo travessuras,
Correndo adoidados e soltando gargalhadas.

Conhecer quem sabe um bezerrinho mamando,
Na teta da mãe onde sai o leite generoso,
Pois na minha mente ele já vem embalado,
É só abrir a borda da caixa e misturar no café.

Queria um dia escorregar numa suave corredeira,
Do rio que me convida a mergulhar no remanso,
E depois de refrescante banho onde vou me deliciar,
Olhar no alto e ver a cachoeira caindo mansinha.

Esse mundo das brincadeiras inocentes,
Com crianças sorrindo e correndo descalças,
Parece para mim coisas bobas do passado,
Mas quem viveu jamais dele se esquecerá.